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Libertas Quae Sera Tamen

domingo, 20 de fevereiro de 2011


Desde os primórdios da evolução, o ser humano busca e anseia por liberdade. E liberdade, hoje em dia, tornou-se uma palavra desgastada e explorada em todos os seus limites e sentidos possíveis.
Mas o que nos faz livres, realmente?

Na mídia, a liberdade é explorada como expressão de consumo, encaixando-se na cultura de massa. Então, nos deparamos com a liberdade do cartão de crédito, que permite consumir um produto que está na moda, ou simplesmente, a liberdade de obter realizações pessoais, materiais e de status, porque na ideologia burguesa a liberdade “cabe no seu bolso”. Somos educados para acreditar que a liberdade está associada ao dinheiro e dele depende.
Essa “liberdade” faz parte de uma realidade fantástica, alimentada pela sociedade capitalista. O mercado direciona o consumo e o determina, com algumas variações de gostos, padrões, tipos. Dessa forma, existe um consumo massificado, mascarado por um discurso individualista, que faz com que as pessoas se sintam diferentes, consumindo o mesmo que todos os outros e se considerem absolutamente livres em suas escolhas individuais. Um condicionamento patético da sociedade burguesa, que educa o indivíduo, que nasce essencialmente diferente, a seguir estereótipos e se projetarem símbolos, tornando-o o verdadeiro “produto”, que é moldado e trabalhado para consumir dentro dos segmentos da produção industrial e do varejo, de acordo com as tendências exploradas pela mídia.

Na verdade, a “liberdade”de consumo é uma grande farsa, que alimenta a desigualdade. É a liberdade individual e egoísta daqueles que podem satisfazer seus desejos sem se importar se os outros podem fazer o mesmo. Essa lógica de raciocínio pressupõe não só desigualdade, mas a exploração, sendo que existe apenas a “liberdade” de alguns, em detrimento de outros. E, num sistema de exploração, domínio, escravidão e desigualdade, não pode haver liberdade de qualquer indivíduo que seja. Existe apenas a ilusão da “livre escolha” dentro de modelos predeterminados e estabelecidos, que seguem uma rotina de exclusão social.

Da mesma forma que a liberdade de consumo, a liberdade liberal burguesa também se mostra como um embuste. Nos leva a crer que somos livres ao exercermos a chamada “cidadania”. Mas o que é a cidadania, senão um jargão da esquerda em que o indivíduo para ser cidadão deve se tornar uma engrenagem da “máquina social”? O estado e suas instituições cuidam do “social”, enquanto ao povo, cabe apenas trabalhar e saber em que ocasiões e onde, ele deve e pode opinar.
Sob este aspecto, ser livre é ter o direito de ser uma peça útil para a grande engrenagem do capital, enquanto a economia, a justiça, os serviços sociais e a moral são regulamentados e controlados pelo estado. Então, na visão liberal burguesa, somos cidadãos e “livres”, na medida em que produzimos, consumimos e obedecemos às leis do estado.

“(...)A liberdade política significa que a “polis”, o Estado são livres; a liberdade religiosa, que a religião é livre; a liberdade de consciência, que a consciência é livre e não que eu seja livre do Estado, da religião e da consciência, ou que eu tenha me livrado disso tudo. Não se trata de minha liberdade, mas daquela de uma potência que me domina e me subjuga: um de meus tiranos – o Estado, a religião, a consciência – é livre, um desses tiranos que fazem de mim seu escravo, de tal modo que sua liberdade é minha escravidão.” (Stirner, Max Stirner e o Anarco Individualismo, pg 50)

No liberalismo, limita-se a liberdade à do outro indivíduo, como se fosse uma propriedade privada. Toda responsabilidade de julgamento e determinação, cabe ao estado, que afasta, assim, a responsabilidade de decisões das pessoas. Cada indivíduo deve apenas desempenhar seu papel como cidadão, o que não inclui a liberdade de decisão sobre o seu destino.

Podemos concluir, então, que na democracia liberal burguesa, a chamada "limitação da liberdade" nada mais é do que a ausência da mesma. Nós, brasileiros, nascemos dentro desse sistema ee nele fomos criados. Qualquer um que ouse renunciá-lo, sofre todo tipo de perseguição, repressão e difamação pelo estado para que não se torne um exemplo. É um grande risco para quem quer manter um sistema e uma estrutura social por imposição, que surjam elementos contestatórios de sua veracidade e funcionabilidade.

A liberdade pura não se limita e nem se vincula a modelos e sistemas. É a busca de quem quer ouvir e ser ouvido, de decidir e ter responsabilidade sobre o que decide, de criar e viver conforme princípios estipulados coletivamente, sem imposições ou dominação sobre o outro. Ser livre é estarmos conscientes de tudo que fazemos e das consequências que incidem sobre a sociedade. Ser livre é não necessitar de líderes, porque cada indivíduo é suficientemente responsável para ser o seu próprio líder.

“A liberdade é o direito absoluto de todo homem ou mulher maiores de só procurar na própria consciência e na própria razão as sanções para seus atos, de determiná-los apenas por sua própria vontade e de, em conseqüência, serem responsáveis primeiramente perante si mesmos, depois, perante a sociedade da qual fazem parte, com a condição de que consintam livremente dela fazerem parte.” (Bakunin, Textos Anarquistas, pg.74).